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segunda-feira, fevereiro 9

MauerFall















Visitei Berlim pela primeira vez nos anos 80, quando a cidade ainda era dividida pelo famoso muro de berlim, que eu tinha curiosidade de conhecer, mas não tinha idéia da dimensão daquela parede cinza cortando a cidade em extensões irregulares. O muro fora construído abrindo (ou fechando?) espaço entre ruas desorganizadamente, formando becos não planejados, ou ao longo do rio spree, que servia como uma proteção a mais entre o que era Berlim Ocidental e Berlim Oriental, desde do final da segunda guerra.
O muro era vigiado e tinha um aspecto soturno e triste, uma imposição violenta dentro da cidade, como uma ameaça constantemente presente.
Eu considerava o lado oeste (ocidental) como o “lado de fora”, porque os habitantes deste lado podiam transitar pelo mundo livremente, e chamava de “lado de dentro” a parte leste da cidade (oriental), porque os habitantes viviam sob o regime soviético, e principalmente ali em Berlim, viviam como encarcerados dentro da própria cidade, sem acesso ao lado de fora e sem a maior parte do conforto ou informações geradas do outro lado e afastadas deles pelo muro.

Os ocidentais e turistas podiam conseguir um visto de entrada mediante o pagamento de uma taxa “salgada” para visitar o Oriente, mas deviam retornar antes da meia noite impreterivelmente.

Eu e meu amigo Caíque Ferreira conseguimos os vistos e seguimos curiosos para o lado de dentro, tentando conhecer de perto aquela outra realidade, que podíamos sentir pulsando do outro lado do muro, seriamente vigiado por policiais armados e arames de cerca elétrica.

O lado de dentro era cinza, um cinza que parecia o de uma roupa que teve cor antes, mas que de tanto ser lavada, perdeu completamente a cor. As pessoas eram cinzas também, pareciam tristes, um pouco envergonhadas e amedrontadas, com uma sensação de ingenuidade, como se tivessem sido deixadas pra trás no tempo, marcadas por um fato que se deu sem o desejo delas. Tudo era mais pobre, mais feio, mais silencioso e mais sujo do lado de dentro. A cidade era a mesma, mas esse lado tinha sido “desbotado” e parecia esquecido pelo resto do mundo.

As pessoas dificilmente falavam inglês, e evitavam timidamente o contato com os que vinham de fora, claramente reconhecíveis por eles pelas roupas e o comportamento, talvez pela liberdade(?) de que pareciam usufruir.

Depois de tentar varias vezes fazer contato e nos comunicar com um “habitante de dentro”, conseguimos “fazer amizade” com um homem de uns 30 anos aproximadamente, que havia nascido ali e nunca havia estado em nenhum outro lugar. Digo “fazer amizade” porque no momento que esse cidadão conseguiu “confiar” e se comunicar num inglês decente conosco, era como se fossemos a tabua de salvação dele, a possibilidade dele de conhecer alguma coisa que não chegava nunca ali, nem pela televisão, nem por livros ou filmes, nem por produtos, roupas ou comida, porque toda e qualquer informação era selecionada, e a maior parte interditada.

Nessa época não havia internet, nem MSN, nem Orkut, nem Facebook...nos três ali nem imaginávamos que isso viria um dia a existir.

Esse homem que infelizmente não posso lembrar o nome, nos contava detalhadamente sobre como era viver ali. Nos descrevia suas sensações, seus desejos, suas inquietações e expectativas de forma minuciosa, com uma espécie de alegria e orgulho quase infantis. O mundo para ele sempre tinha sido aquele pedaço de cidade, fechada dentro dela mesma, e embora ele pudesse imaginar que existia uma diferença, o corpo não podia absorve-la, porque nunca tinha sido exposto a ela.

Lembro que sentamos os três de frente para o muro vigiado por dentro ainda mais rigidamente, a uma distancia considerável dele. Nosso novo amigo nos contava casos de pessoas que tentavam fugir, pular o muro para escapar, e como muitas dessas pessoas eram presas ou mortas.
Nos contava que as vezes tentava ouvir os sons do outro lado, e de como alguns se contentavam em espiar por cima do muro de cima dos prédios. Nos contou que aprendeu inglês por livros e revistas que eram atravessados clandestinamente, e fazia o possível para treinar a língua com os turistas que conhecia. Nos disse que achava que um dia iria poder sair e que mesmo vivendo separado do resto do mundo, era feliz ali.

Esse homem nos comoveu profundamente, pelo entusiasmo, pela simplicidade e talvez pela confiança incondicional na própria situação. Passeamos com ele, fomos a um bar gay que ele freqüentava - conversando mais especificamente sobre como era ser gay no Leste - e jantamos juntos. Em um momento escutamos uma sirene alarmante, e ele se apressou em nos levar quase correndo ao ponto mais próximo por onde podíamos atravessar de volta. Nos acenou de longe, do ponto limite onde era permitido para ele estar, de forma alegre e carinhosa, mas para nos parecia conformação e aceitação abnegada.

Poucos anos depois, no dia 11 de novembro de 1989, eu estava em Amsterdam quando estourou a noticia da queda do muro de Berlim. Lembro que pensei imediatamente no nosso amigo com uma emoção enorme. A televisão mostrava imagens comoventes, haviam fotos em todos os jornais do mundo, e eu recortei a imagem de capa do jornal holandês NRC e colei no meu diário de imagens, que guardo ate hoje, com aquela data histórica.

Nessa ocasião, Pina Bausch e a companhia de Wuppertal com quem eu havia recentemente estagiado, estavam nos preparativos finais para a estréia de um novo espetáculo. Como de costume, Pina preparava as cenas, movimentos e a dramaturgia das obras anteriormente, e so depois decidia sobre o cenario e o titulo daquilo que havia criado. Incorporou imediatamente a queda do muro nesse novo espetáculo, que veio a se chamar meses depois da estréia “Palermo,Palermo”.

A cortina se abria e víamos um muro enorme e massivo construído entre a platéia e o palco. Não havia musica, nem uma luz especial. Passavam se cinco minutos e nada acontecia, apenas o muro ali, inerte. O publico começava a se inquietar, se mexer nas cadeiras. Mas alguns minutos e nada, nenhuma mudança, nenhum sinal de que o espetáculo iria começar. Quando já estávamos chegando no limite da paciência, nos perguntando qual era o problema técnico que impedia o inicio do espetáculo, o muro desmorona completamente a nossa frente. Uma musica forte começa e uma mulher aparece correndo de salto altos por cima dos escombros, acompanhada de vários homens que pareciam tomar finalmente o mundo para si, trazendo seus pertences, mobílias, malas, animais de estimação, que acabam por se misturar a uma enorme quantidade de lixo que em poucos minutos invade o palco.

Os teóricos da contemporaneidade dizem que depois da queda do muro, o mundo perdeu a noção de “dentro e fora”, afirmando que agora não ha mais o outro lado, o outro ser humano, a outra situação, ou seja, estamos todos desprotegidos por esse não-limite, essa não-divisao, essa não-diferenca.

Esse ano o mundo comemora 20 anos dessa queda.
O muro agora esta partido em pedaços, destruído como que pelas mãos do povo, esburacado, pixado e grafitado com palavras de amor, ódio e esperanca, banalizado na paisagem da cidade de Berlim, mas sem indiferença e sem esquecimento, como um limite metafórico, uma fronteira que em algum lugar continua a existir entre os humanos, as relacoes e as políticas do mundo.

Meu amigo Caíque morreu alguns anos depois dessa queda, e eu nunca mais soube noticias do nosso amigo Oriental.

Mas passando agora a mão pelos restos do muro, o imaginei se divertindo nos bares de London, ou trabalhando na loja do Dolci e Gabanna de Paris, ou dando aulas de inglês em Tóquio, ou de ferias nas Bahamas com um namorado Sueco.
Passei mais algumas vezes a mão pelo muro do antigo lado leste da cidade. Desta vez para embaralhar as memórias, relativizar as emoções guardadas no limite de um corpo, e refrescar desejos de uma alegria mais sólida, mais potente e mais real para o mundo.


(escrito no IC 140 - Berlim Hbf - Amsterdam Centraal)

1 comentários:

fabio crazy da selva. disse...

imagino que quadrinhos seja uma linguagem que tu nao e muito intimo, mas polansky e costa gravas perderam em materia de abordagem ao tema holocausto, tentando comparar os trabalhos cinematograficos que fizeram sobre o assunto com a obra de art spigelman, filho de judeus sobreviventes do holocausto que cresceu com os pais em nova york.A obra de spigelman tem essa atmosfera de ingenuidade por ser abordado atraves da linguagem dos quadrinhos.MAUS e um exercicio de metaliteratura,onde ele retrata os alemaes como gatos, os poloneses como porcos, os americanos como caes e os judeus como ratos...transcrevendo a critica:"todos sao absolutamentes humanos".E o relato mais contundente que ja vi sobre esse evento que exterminou milhares e milhares de judeus durante a guerra...vale a pena conferir!